PÁSCOA: Justificativa maior de Renovação – Mensagem de Dom Luiz Gonzaga Fechio – Bispo Diocesano de Amparo
Nunca é demais recordar que o cume de toda a nossa caminhada cristã, na fé, esperança e caridade, é o Mistério Pascal. A própria palavra “mistério” já nos remete a uma realidade que transcende nossa limitada capacidade de esgotar a profundidade do que celebramos na Páscoa, mesmo porque o silêncio necessário, principalmente, na sexta-feira santa, conforme nos pede a liturgia, é justamente para nos curvarmos à grandeza infinita do autêntico amor que dá todo o sentido à nossa vida e à vida em todo o universo, visto que é impossível justificar intelectualmente um acontecimento que expressa o maior amor do mundo, com a maior dor do mundo. E quando temos que considerar que aí está a referência singular para exercitarmos continuamente a bondade e o amor, não é possível chegarmos a uma conclusão “lógica”, racional, de que vale a pena buscarmos viver por esse caminho, se não nos alicerçarmos na garantia absoluta e inquestionável da vida, por excelência, que recebemos do Crucificado-Ressuscitado.
Como afirmava nosso querido Papa Francisco, cuja memória será sempre oportuna, não existe Quaresma sem Páscoa. É evidente que não se trata de uma constatação de calendário, porém, aproveitando desta palavra, a questão é essa verdade óbvia ser procurada e alcançada no calendário do coração, de um coração desejoso e esforçado por uma nova vida, no permanente exercício de uma conversão que, sabemos bem, é tão exigente nas diversas situações do nosso cotidiano, mais ainda no que costumeiramente nos acomodamos ou nos assentamos num estado de pecado que não mais nos incomoda, talvez porque consideramos a gravidade ou o peso dos desvios de irmãos que acabam sendo, no nosso modo de pensar comparativo, motivo para gozarmos de uma tranquilidade doentia na vida religiosa.
Se não existe Quaresma sem Páscoa, não há possibilidade de celebrar autenticamente a vida nova que o Ressuscitado deseja para nós e nos convoca para tal, se, ao menos, não nos esforçamos para uma renovação interior que é tão exigente. Inegavelmente, o caminho de conversão se estende até o final da vida, mas a ocasião oportuna que o Senhor está nos oferecendo é agora.
Finalizamos um tempo de graça, iniciado na Quarta-feira de Cinzas, que o amor divino nos concedeu e que a liturgia nos proporcionou para ser uma rica experiência de enfrentarmos a nós mesmos, acreditando que vale a pena buscarmos uma renovação, uma nova pessoa que deve ser gerada nesse esforço contínuo de permitir-se renascer pela ação do Espírito Santo e, consequentemente, expressando, principalmente no relacionamento, que é possível aparecer o novo de que a nossa vida necessita na caminhada cristã.
A renovação à qual a Páscoa nos chama pode ser justificada na sua considerável importância quando, por exemplo, observamos o que a própria ciência mostra sobre a mudança que acontece em nosso corpo, no que diz respeito à troca de pele.
Mesmo sem percebermos, o corpo humano está em permanente renovação. A pele, maior órgão do organismo, passa por um processo contínuo de troca celular que acontece diariamente e silenciosamente, enquanto dormimos, trabalhamos ou nos movimentamos. É uma verdadeira renovação celular. Novas células vão sendo produzidas nas camadas mais profundas e vão empurrando as antigas para a superfície. No decorrer do tempo, essas células antigas morrem e se desprendem naturalmente, mantendo a pele funcional, resistente e em constante regeneração. Tal renovação se dá totalmente a cada 28 a 30 dias, em média, variando conforme a idade, a saúde e os hábitos diários. As células mortas vão se soltando aos poucos e se misturando ao ambiente, sem chamar atenção.
É sugestiva a comparação com a novidade que o Senhor espera de nós na Páscoa. Se, ao longo da nossa vivência cristã, no discipulado missionário com Jesus – e, de modo especial no período quaresmal – a palavra conversão é tão incisiva, vale a pena e se faz determinadamente necessário investirmos nosso esforço cotidiano em fazer acontecer essa troca ou mudança que expressa uma permanente busca da pessoa nova a ser revelada em nossa personalidade, nas numerosas pequenas atitudes ou gestos manifestadores de uma passagem (páscoa) de morte para vida, no relacionamento com Deus, com a criação, com o próximo e conosco mesmos.
Feliz Páscoa-passagem!
Dom Luiz Gonzaga Fechio